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A supervalorização do marketing

Martha Medeiros

Eram nove da noite quando o Simply Red entrou no palco do Gigantinho para fazer o show que estava marcado para as oito. Uma hora de atraso, logo eles, ingleses. O público já havia vaiado, estava impaciente, irritado, qual é? Então Mick Hucknall começou a cantar e a dançar, e o público rendeu-se. Começava um showzaço.

Não vou escrever uma crítica do show, isso aconteceu já faz uma semana, tempos pré-históricos. Mas vale a pena refletir um pouco sobre o sucesso do Simply Red, um grupo que não é novo (ano que vem completa 20 anos de carreira), cujo vocalista não é bonito nem tem fama de dom-juan e cujo discos não são lançados em megaeventos. O Simply Red faz um som ora romântico, ora dançante, é sofisticado e ao mesmo tempo popular. Ninguém sabe nada da vida íntima do grupo, apenas que Mick Hucknall, o Red, tem uma voz abençoada e uma postura de palco charmosa – não escandalosa, não ensaiada, não performática – charmosa. E assim eles vão fazendo shows pelos cinco continentes, vendendo discos e ganhando seus milhões sem fazer estardalhaço, fazendo apenas música.

Eles prescindem do marketing? É certo que contam com assessores da gravadora e do próprio grupo, mas não acredito que haja um enorme planejamento estratégico a cada novo CD lançado. Dão entrevistas para rádios e revistas, gravam clipes e agendam muitos espetáculos – serão cem só este ano. E aposto que, nos dias em que não estão em turnê, podem jantar num restaurante como qualquer mortal, sem reclamar para os jornais: “Oh, não consigo ter privacidade”.

Escrevo isso pensando em certos cantores cuja vida sexual discutimos em botecos. Será mesmo tão necessário um artista expor sua vida pessoal, criar factoides para a mídia, fazer mistério para futuros projetos, posar de deus e exigir esquisitices para os camarins? Há um momento em que alguns deles perdem o controle de própria vaidade e armam circos para atingir um retorno que não seria muito diferente caso se concentrassem apenas no feijão-com-arroz: entrevistas, clipes e shows. O talento se encarrega do resto, sempre se encarregou: é ele que vai determinar se a carreira do sujeito vai durar 20 anos ou 20 minutos.

Assistir a um Simply Red cumpridor, que homenageou Barry White e tirou do fundo baú um hit do Stylistics, tudo com competência, prazer e emoção – e público pagante – me convenceu que confiar no próprio taco é um recurso de marketing também bastante eficiente – e bem mais econômico. Ninguém precisa mobilizar o planeta e fazer misérias pra mostrar que existe – a não ser que não exista.


Domingo, 5 de outubro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.